Pós-parto e matrescência · Episódio 8
Matrescência: a palavra que muda tudo sobre tornar-se mãe
A psicoterapeuta somática Hannah Staunton explica a matrescência, porque é que as mães recentes vivem em alerta e como preparar o pós-parto.
Born to be Wild · 2026-09-28
Um carro apita enquanto caminhas com o teu recém-nascido no porta-bebés, e dás por ti a gritar com o condutor, tomada por uma vontade primitiva de proteger o bebé. A Aviva Markowicz viveu exatamente isso, seis semanas depois de dar à luz.
Há uma palavra para toda esta transformação, a raiva, a mudança de identidade, a sensação de estar perdida: matrescência. No episódio 8 do podcast Born to be Wild, a psicoterapeuta somática Hannah Staunton explicou o que significa e como atravessá-la com mais compaixão.
Vê o perfil da Hannah Staunton no nosso diretório.
O que é a matrescência?
Pensa na adolescência, mas para a maternidade. A Hannah define a matrescência como a transição biológica, psicológica, social e espiritual de não-mãe para mãe.
Não acontece de um dia para o outro. Pode levar anos. A Hannah usa uma imagem que fala a muitas mães:
"Estás a nascer como mãe, e pode parecer que ficas presa no canal de parto durante muito tempo."
Conhecer a palavra muda muito. Muitas mulheres sentem um enorme alívio quando percebem que o que estão a viver é um processo partilhado e biológico, e não um fracasso pessoal.
"Voltar ao que eras" não existe
A sociedade espera que as mães voltem a ser quem eram antes. Para a Hannah, não há volta atrás, só caminho para a frente. Muito do sofrimento vem de ficar presa entre duas identidades, a resistir à mudança.
Ela aponta também um paradoxo. Na gravidez, todos cuidam da grávida radiante. Depois do nascimento, toda a atenção passa para o bebé, e a mãe torna-se invisível. E, no entanto, é ela que segura tudo.
Porque é que as mães recentes vivem em alerta
A gravidez e o pós-parto tornam o sistema nervoso mais sensível. Faz sentido do ponto de vista biológico: tudo está orientado para manter vivo um recém-nascido.
- Como explica a Hannah, a tua deteção de ameaças aumenta, e ficas mais hipervigilante.
- A investigação com imagiologia cerebral mostra que a gravidez altera a massa cinzenta em áreas ligadas à cognição social, alterações associadas ao vínculo com o bebé (Hoekzema et al., 2017). A Hannah vê-o todos os dias: não consegues acompanhar uma conversa num café quando o bebé está perto.
- Num mundo que não está feito para apoiar as famílias, é fácil ficar presa a perceber ameaças que não são reais, num estado de stress crónico.
Regular o sistema nervoso não é estar sempre calma. É conseguir sentir grandes emoções, incluindo a "raiva de mãe", e voltar ao equilíbrio. Trata-se de aumentar a tua capacidade, não de reprimir o que sentes.
Uma prática simples para começar
A Hannah começa pelo enraizamento e pela orientação: mover lentamente os olhos de um lado ao outro da sala, como os nossos antepassados a observar o horizonte. É o contrário de olhar para um ecrã pequeno, e ajuda as mulheres que se sentem desorientadas, a perguntar "quem sou, onde estou?".
O trauma de parto passa muitas vezes despercebido
Na experiência da Hannah, as mães diagnosticadas com depressão ou ansiedade pós-parto raramente são questionadas sobre o parto, ou sobre o seu contexto. Estão a dormir? A comer? Quem está a cuidar delas?
- Algumas mulheres não reconhecem a experiência como traumática, porque parece um fracasso ou mancharia um momento sagrado.
- O trauma é subjetivo. Duas mulheres podem viver o mesmo acontecimento de formas muito diferentes.
- Mesmo um parto empoderador é uma experiência enorme, que precisa de tempo para ser integrada.
- Não há uma forma certa de parir. Uma cesariana escolhida pode ser profundamente empoderadora. O trauma surge muitas vezes quando a mulher perde a capacidade de decidir, como mostra também a investigação sobre os relatos de mulheres com trauma de parto (Reed et al., 2017).
Se te sentes em baixo, ansiosa ou diferente de ti de forma persistente, fala com um profissional de saúde. A depressão e a ansiedade pós-parto são reais e tratáveis (NHS), e a tua história de parto faz parte do quadro. Em Portugal, a lei dá-te também direito a uma consulta de pós-parto entre a 4.ª e a 6.ª semana depois do parto, incluindo a deteção precoce da depressão pós-parto (Lei n.º 15/2014).
As horas depois do parto são as que mais contam
O parto da Hannah em Portugal foi, em si, bastante positivo. O que lhe ficou no corpo foi o que veio depois. O companheiro teve de sair uma hora depois do nascimento. Ficou sozinha num quarto partilhado de um hospital público, com luzes fortes, outras mulheres em videochamadas às duas da manhã, e sem descanso. Quando pediu várias vezes para ir para casa, um pediatra gritou com ela.
"Mesmo depois de um parto traumático, os cuidados certos logo a seguir podem mudar tudo."
Como lembra a Aviva no episódio, ao contrário de muitos países europeus, as visitas de uma parteira em casa depois do parto não são rotina em Portugal. Muitas mulheres ficam sozinhas precisamente quando mais precisam de cuidado.
Como preparar o pós-parto
A Hannah acredita que preparar o pós-parto é ainda mais importante do que preparar o parto:
- Planeia os cuidados do pós-parto imediato: uma doula de pós-parto, uma parteira ou uma terapeuta que possa testemunhar e reconhecer o que viveste. Parceiros e família nem sempre conseguem, e não se deve esperar isso deles.
- Explora as tuas crenças antes de o bebé chegar. O que acreditas realmente sobre o parto e a maternidade? De onde vêm essas crenças? Uma muito comum: "tenho de me sacrificar pelo meu bebé".
- Junta preparação e entrega. Prepara o corpo e a mente, sabendo que não controlas para onde o parto vai.
- Pede ajuda. As mães esgotam-se quando interiorizam que deviam conseguir tudo sozinhas.
"Nunca foi trabalho para uma só pessoa. É preciso uma aldeia para criar um bebé, e uma mãe."
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Perguntas frequentes
O que significa matrescência? É a transição para a maternidade: uma transformação biológica, psicológica, social e espiritual, comparável à adolescência, que pode durar vários anos.
A raiva no pós-parto é normal? Uma resposta de proteção mais intensa faz parte do sistema nervoso no pós-parto. Se a raiva ou a ansiedade forem avassaladoras ou constantes, procura apoio de um profissional.
Quanto tempo dura o pós-parto? Muito mais do que as seis semanas de que se costuma falar. A Hannah fala de um "pós-parto inicial", mas a adaptação à maternidade pode levar anos.
Fontes
O que os convidados partilham vem da sua experiência e prática. A informação médica e legal deste artigo tem por base as fontes abaixo, e não substitui o aconselhamento da tua equipa de saúde.
- Hoekzema et al. (2017). Pregnancy leads to long-lasting changes in human brain structure. Nature Neuroscience
- Reed, Sharman & Inglis (2017). Women's descriptions of childbirth trauma relating to care provider actions and interactions. BMC Pregnancy and Childbirth
- NHS. Postnatal depression
- Lei n.º 15/2014, Direitos e deveres do utente dos serviços de saúde (versão consolidada, com as alterações de 2019 sobre a gravidez e o parto)
Ouve o episódio completo
Este artigo baseia-se no episódio 8 de Born to be Wild, o podcast: Matrescência, a palavra que muda tudo, com a Hannah Staunton (episódio em inglês). Ouve no Spotify.