Histórias de parto · Episódio 4
Parir nos Açores: um incêndio no hospital, uma parteira num avião e um parto em casa
Quando a maternidade ardeu semanas antes da data prevista, a Irene Jaspers teve 24 horas para decidir um novo plano. Confiar no corpo nos Açores.
Born to be Wild · 2026-09-28
A Irene Jaspers, coapresentadora do podcast Born to be Wild, vive em Santa Maria, a ilha mais a sul dos Açores: cerca de 6000 habitantes e nenhuma maternidade. No episódio 4, passou para o outro lado do microfone para contar à Aviva Markowicz a história do seu segundo parto, o que a fez tornar-se doula.
Grávida numa ilha sem maternidade
Nas ilhas mais pequenas dos Açores, a gravidez traz logística:
- Ecografias e exames implicam muitas vezes um voo para uma ilha maior. Os aviões entre ilhas funcionam "quase como um autocarro".
- Por volta das 36 semanas, as grávidas são enviadas para outra ilha, normalmente São Miguel, para esperar o parto perto de um hospital.
- Sem família por perto, a Irene e o marido alugaram uma casa perto de Ponta Delgada, arranjaram uma babysitter para o filho, o Sam, e até enviaram o carro de barco.
A Irene teve uma gravidez maravilhosa: treinava quatro ou cinco vezes por semana, fazia caminhadas, andava 15 000 passos por dia até ao fim. O acompanhamento combinou cuidados nos Países Baixos, consultas no centro de saúde local e uma doula em São Miguel, já que em Santa Maria não havia nenhuma.
Semanas antes da data prevista, o hospital ardeu
Dias antes de voar para São Miguel, o hospital público onde planeava ter o bebé sofreu um incêndio, e a maternidade ficou destruída. Os cuidados passaram para o hospital privado, e as consultas de vigilância foram canceladas.
Às 37 semanas, a doula descreveu-lhe a realidade: parceiros proibidos na sala de partos, mulheres a parir em salas partilhadas, epidural e ocitocina sintética usadas para acelerar as coisas num espaço improvisado e sobrelotado. A Irene quase chorou.
"Quando dás à luz, queres sentir-te segura. Aquele era o cenário menos seguro que eu podia imaginar."
Plano B: uma parteira a voar de Lisboa
Na mesma conversa, a doula propôs outra opção: uma parteira independente do continente apanharia um avião quando o trabalho de parto começasse e acompanharia um parto em casa, na casa arrendada.
O marido hesitou ao início, como acontece muitas vezes com os parceiros. Depois de um dia a falar sobre isso, decidiram avançar, com uma condição: tinha de ser medicamente seguro. Todo o material estaria pronto, e se a parteira não chegasse a tempo, a Irene iria para o hospital.
A parteira era a Raquel Cajão. Reviu os exames da Irene e fez-lhe uma pergunta de que ela gostou muito: o que diz a tua intuição sobre quando o bebé vai nascer? A Irene respondeu: dois ou três dias depois da data prevista. Acertou.
Dizer que não nas urgências
Com 40 semanas e um dia e contrações iniciais, a Irene foi às urgências do hospital privado só para carimbar um documento. Depois de meia hora no CTG, a equipa quis interná-la e fazer um toque vaginal. Ela recusou, depois recusou uma ecografia interna, e aceitou apenas uma ecografia externa.
Quatro enfermeiras continuaram a pressioná-la, dizendo que "todas as mulheres em Portugal têm os filhos assim", e até que o bebé ia morrer se ela fosse para casa. Só a ginecologista a apoiou. O marido não pôde entrar na sala.
"Foi uma das piores experiências da minha vida. Comecei a chorar."
Ela respeita o esforço da equipa, num espaço improvisado e num hospital habituado sobretudo a cesarianas. Mas não foi uma comunicação respeitosa. No fim, foi para casa.
Lembra-te: podes recusar qualquer exame ou procedimento médico. A lei portuguesa garante o direito ao consentimento informado e à recusa informada, também nas urgências (Lei n.º 15/2014).
Trabalho de parto em casa: techno, uma piscina de parto e um "estrondo"
O dia seguinte foi calmo: um longo passeio de carro com o marido, o Sam com a babysitter, comida indiana picante ao jantar. Quando se deitou para adormecer o filho, "a ocitocina chegou".
Mandou o marido dormir para descansar, e fez o trabalho de parto sozinha na banheira, com auscultadores, a ouvir techno e rock "como uma pequena festa". Por volta da 1h, as contrações ficaram fortes. A parteira e a doula chegaram dez minutos depois e montaram a piscina de parto.
- Água quente nas costas aliviou a dor lombar.
- Sentar-se na sanita ajudou muito: para a Irene, é um sítio onde o corpo se solta.
- A Raquel nunca fez toques vaginais. Em vez disso, encorajou a Irene a sentir a própria dilatação, e a cabeça do bebé.
Às 5h, sentada na sanita, a bolsa rebentou com tal estrondo que todos vieram a correr, a pensar que o bebé tinha caído. A Irene desatou a rir.
Transição, uma sesta de 20 minutos e um nascimento suave
A transição trouxe todas as emoções. A Irene pediu ao marido que aquele fosse o último parto. Com dilatação completa, as contrações pararam e ela adormeceu uns 20 minutos com a cara nas mãos da doula, enquanto a parteira acendia a lareira.
Depois veio a vontade de fazer força. Exausta, a Irene queria empurrar ativamente, mas a Raquel sugeriu esperar que a vontade de fazer força viesse sozinha, em vez de empurrar por comando. Muitas parteiras preferem deixar o corpo conduzir. A investigação que compara os puxos espontâneos e os dirigidos não encontrou uma diferença clara nas lacerações, e os puxos dirigidos também não mostraram benefícios claros (Cochrane, 2017). Cerca de 15 minutos depois, a filha nasceu na água. Calma, sem pressa, encontrou a mama sozinha.
O filho dormiu durante todo o parto e acordou uma hora depois, maravilhado por encontrar um bebé e uma banheira na sala.
O que fez a diferença
- Conhecer-se. A Irene tinha lido livros e ouvido muitas histórias de parto. Os mantras dela eram "quando achas que já não consegues, estás só a 40%" e "isto também passa, não temos pressa".
- Confiar no corpo, em vez de depender totalmente dos profissionais, como da primeira vez.
- Uma rede de mulheres: uma doula, e uma parteira que apanhou um avião.
"O teu parto não tem de ser igual ao de ninguém. Só tem de ser teu, e tens de te sentir segura."
Lê o capítulo seguinte desta história: Raquel Cajão, a parteira que veio de avião, fala sobre parto em casa em Portugal.
Perguntas frequentes
Como funciona o parto nas ilhas mais pequenas dos Açores? Na experiência da Irene, as ilhas sem maternidade enviam as grávidas para uma ilha maior por volta das 36 semanas, para esperar o parto perto de um hospital. Confirma no teu centro de saúde e planeia cedo a logística: casa, cuidados com os filhos e apoio.
Posso recusar um toque vaginal num hospital em Portugal? Sim. A lei garante o teu direito à informação, ao consentimento informado e à recusa informada (Lei n.º 15/2014). Podes perguntar para que serve um exame, pedir uma alternativa ou recusar.
Uma parteira do continente pode acompanhar um parto em casa nos Açores? No caso da Irene, uma parteira independente de Lisboa viajou quando o trabalho de parto começou. Exige planeamento, uma gravidez saudável e um plano B hospitalar claro. Encontra uma parteira no nosso diretório.
Fontes
O que os convidados partilham vem da sua experiência e prática. A informação médica e legal deste artigo tem por base as fontes abaixo, e não substitui o aconselhamento da tua equipa de saúde.
- Lei n.º 15/2014, Direitos e deveres do utente dos serviços de saúde (versão consolidada, com as alterações de 2019 sobre a gravidez e o parto)
- Lemos et al. (2017). Pushing/bearing down methods for the second stage of labour. Revisão Cochrane
Ouve o episódio completo
Este artigo baseia-se no episódio 4 de Born to be Wild, o podcast: Um incêndio no hospital. Uma parteira que apanhou um avião. E um parto em casa., com a Irene Jaspers (episódio em inglês). Ouve no Spotify.