Parto em casa · Episódio 5
Parto em casa em Portugal: o que uma parteira quer que saibas
A parteira Raquel Cajão fala do parto em casa em Portugal: quem o acompanha, o que é um parto seguro, quando ir para o hospital e como proteger o teu parto.
Born to be Wild · 2026-09-28
A Raquel Cajão acompanha partos em casa na zona de Lisboa há mais de 11 anos. No episódio 5 do podcast Born to be Wild, conversou com a Aviva Markowicz e a Irene Jaspers (cujo parto em casa foi acompanhado pela Raquel) sobre parto fisiológico, segurança e porque é que "não fazer nada" é uma das competências mais difíceis de aprender para uma parteira.
Aqui fica o que ela quer que todas as futuras mães e pais em Portugal saibam, quer estejas a planear um parto em casa ou no hospital.
Quem acompanha partos em casa em Portugal?
Em Portugal, as parteiras formam-se primeiro em enfermagem e depois especializam-se em saúde materna e obstétrica (enfermeira especialista em saúde materna e obstétrica, ou EESMO). É um percurso longo, que forma profissionais altamente qualificadas, com competências definidas na lei (Regulamento n.º 391/2019).
A Raquel fez esse percurso e foi mais longe: formou-se ao lado de parteiras no Brasil, incluindo parteiras tradicionais, cujo saber passa de geração em geração. O que mais a marcou foi perceber que muitas práticas hoje "confirmadas pela evidência", como a liberdade de movimento e de posição durante o trabalho de parto, eram coisas que estas parteiras sempre souberam.
Em Portugal, são poucas as parteiras que trabalham de forma independente em partos em casa. A Raquel é uma delas, e podes encontrar o perfil dela no nosso diretório.
"Não fazer nada" é uma competência, não ausência de cuidado
Quando se imagina uma parteira de parto em casa, às vezes pensa-se em alguém passivo. A Raquel descreve o contrário: ficar sentada num canto durante horas, a ouvir e a observar, é trabalho ativo.
"Temos de saber qual é realmente o momento de intervir, para podermos não fazer nada, mesmo que esse nada seja muito."
Ela lembra o que a investigação sugere: uma intervenção pode levar a outra, aquilo a que se chama cascata de intervenções. Por exemplo, a monitorização eletrónica contínua (CTG) durante o trabalho de parto está associada a mais cesarianas e partos instrumentados (Cochrane, 2017), e a epidural a mais partos instrumentados (Cochrane, 2018). Quando o parto está a correr normalmente, a contenção é, por si só, uma forma de cuidado.
As intervenções não são só médicas: as palavras também contam
Para a Raquel, uma intervenção não é apenas uma epidural, ocitocina sintética, fórceps ou uma cesariana. Uma palavra também pode ser uma intervenção.
O exemplo dela: numa ecografia, um profissional comenta de passagem "Que cabeça grande!". Não há nenhum problema, mas a mãe sai a pensar se o bebé vai conseguir passar. Esse simples comentário pode marcar a forma como vive o resto da gravidez, o parto e até o pós-parto.
O que significa realmente um "parto seguro"?
Muita gente assume que mais monitorização e mais intervenção tornam automaticamente o parto mais seguro. A Raquel questiona isso: confunde-se muitas vezes segurança com controlo, e as interrupções constantes podem perturbar o trabalho de parto fisiológico.
Para ela, a verdadeira segurança inclui também:
- segurança emocional: sentires-te calma, respeitada e sem te sentires observada,
- autonomia: fazeres as tuas próprias escolhas, de forma informada,
- continuidade de cuidados: seres acompanhada por alguém que conheces e em quem confias, da gravidez ao parto. A continuidade de cuidados por parteiras está associada a menos intervenções, como epidurais, episiotomias e partos instrumentados (Cochrane, 2016).
Como é que uma parteira sabe quando intervir
A Raquel observa três coisas: o ritmo, o foco e a interiorização. No trabalho de parto fisiológico, a mulher fica muitas vezes menos verbal e mais instintiva, e a respiração, os sons e os movimentos organizam-se sozinhos. Quando algo perturba essa "dança", isso chama a atenção dela.
Ela também escuta a dor. Uma dor súbita e muito diferente na fase expulsiva pode dizer-lhe algo sobre a posição do bebé ou sobre o colo do útero. O mesmo acontece com uma alteração do batimento cardíaco do bebé num momento inesperado. Nesses casos, faz uma sugestão, como mudar de posição, para voltar a encaminhar as coisas no sentido da saúde.
Ela é clara quanto aos limites: fisiologia é uma coisa, patologia é outra. Se surgir uma condição como a pré-eclâmpsia, é o momento de agir, e não de esperar.
O que pode abrandar o trabalho de parto, em casa ou no hospital
O trabalho de parto é hormonal e muito sensível ao ambiente. Segundo a Raquel, o que mais o perturba é:
- o barulho,
- as luzes fortes,
- pessoas a entrar e a sair, sobretudo desconhecidas,
- tudo o que coloca a mente em alerta.
Segundo a Raquel, o medo deixa o corpo tenso, o que pode tornar o trabalho de parto mais longo e mais doloroso, e impede as endorfinas de fazerem o seu trabalho.
A dica prática dela para um parto no hospital: leva uns auscultadores com cancelamento de ruído. Podes ouvir a tua música ou simplesmente bloquear o barulho à tua volta. Muitos hospitais aceitam também um plano de parto, onde podes pedir luz suave, música e privacidade.
Quando ir para o hospital?
A Raquel vê muitas mães de primeira viagem internadas muito cedo, às vezes com 2 ou 3 cm de dilatação. Esse internamento precoce pode, por si só, encaminhar o parto para mais intervenções.
A Organização Mundial da Saúde define o início da fase ativa do trabalho de parto por volta dos 5 cm (OMS, 2018), e a norma britânica NICE usa os 4 cm (NICE, 2023). Em qualquer dos casos, é bem mais do que os 2 ou 3 cm com que a Raquel vê muitas mulheres serem internadas. Cada mulher e cada parto são diferentes, por isso fala com a tua parteira ou médico sobre quando sair de casa. Mas fica a saber que passar a fase inicial num sítio calmo e familiar é muitas vezes uma boa ideia.
Autonomia real: sim, não, ou "agora não"
Para a Raquel, autonomia significa escolha real, consentimento informado e liberdade para dizer sim, não ou "agora não", sem pressão. Significa também respeitar escolhas que a própria profissional não faria.
A Irene partilhou um momento do seu parto: exausta, começou a fazer força antes de o corpo estar pronto. A Raquel sugeriu com calma que esperasse pelo reflexo expulsivo, deixando claro que a escolha continuava a ser da Irene. O parto funciona melhor como uma colaboração, e não como uma entrega total a um profissional.
E a resposta dela sobre o que faz um parto verdadeiramente respeitado? "Escuta, aceitação e respeito."
Parto em casa ou no hospital?
A Raquel recusa a ideia de "casa bom, hospital mau". Já ouviu histórias maravilhosas de partos no hospital, e sabe que os partos em casa também podem trazer momentos difíceis. O que importa é que cada mulher dê à luz onde se sente segura, e que os profissionais tenham condições para respeitar a fisiologia de um parto normal, onde quer que aconteça.
Perguntas frequentes
O parto em casa é legal em Portugal? Sim. Nenhuma lei o proíbe, e assistir um parto normal faz parte das competências legalmente definidas das enfermeiras especialistas em saúde materna e obstétrica (EESMO) (Regulamento n.º 391/2019), que acompanham partos em casa como parteiras independentes.
Quem pode acompanhar um parto em casa em Portugal? Uma enfermeira especialista em saúde materna e obstétrica. Muitas famílias escolhem também ser acompanhadas por uma doula, para apoio emocional e prático. As doulas não prestam cuidados médicos.
O parto em casa é seguro? Depende da tua situação. Num grande estudo inglês com mulheres saudáveis e gravidezes de baixo risco, os partos planeados em casa tiveram menos intervenções. Para as mulheres que já tinham tido filhos, os resultados para os bebés foram semelhantes aos do hospital. Para as mães de primeira viagem, houve um pequeno aumento do risco para o bebé, e cerca de 45% foram transferidas para o hospital durante o trabalho de parto (Birthplace in England, 2011; NICE, 2023). Fala da tua situação pessoal com um profissional de saúde.
Posso ter um parto fisiológico no hospital? Muitas vezes, sim. Um plano de parto, um ambiente calmo, ficar em casa durante a fase inicial e ter apoio contínuo podem ajudar.
Fontes
O que os convidados partilham vem da sua experiência e prática. A informação médica e legal deste artigo tem por base as fontes abaixo, e não substitui o aconselhamento da tua equipa de saúde.
- Regulamento n.º 391/2019, competências específicas do enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica (Ordem dos Enfermeiros)
- Alfirevic et al. (2017). Continuous cardiotocography (CTG) as a form of electronic fetal monitoring for fetal assessment during labour. Revisão Cochrane
- Anim-Somuah et al. (2018). Epidural versus non-epidural or no analgesia for pain management in labour. Revisão Cochrane
- Sandall et al. (2016). Midwife-led continuity models versus other models of care for childbearing women. Revisão Cochrane
- Organização Mundial da Saúde (2018). WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience
- NICE (2023). Intrapartum care (NG235)
- Birthplace in England Collaborative Group (2011). Perinatal and maternal outcomes by planned place of birth for healthy women with low risk pregnancies. BMJ
Ouve o episódio completo
Este artigo baseia-se no episódio 5 de Born to be Wild, o podcast: A arte de não fazer nada no parto, com a Raquel Cajão (episódio em inglês). Ouve no Spotify.
Procuras uma parteira? Vê as parteiras do nosso diretório, com avaliações partilhadas por outras famílias.
Lê também: Parir nos Açores: a história do parto em casa da Irene, com a Raquel como parteira.