Fertilidade e PMA · Episódio 11
Óvulos congelados, FIV e maternidade aos 45: a história da Mara
A Mara congelou os óvulos aos 37 e foi mãe aos 45 em Lisboa. Uma gravidez depois dos 45, uma cesariana escolhida e um pós-parto inesperado.
Born to be Wild · 2026-09-28
A Mara cresceu em Porto Rico, viveu anos em Nova Iorque e vive hoje em Lisboa com o marido, o cão e o filho bebé. Aos 30 anos, a maternidade "nem em um milhão de anos" estava nos seus planos.
No episódio 11 do podcast Born to be Wild, contou à Aviva Markowicz e à Irene Jaspers como congelou os óvulos, se tornou mãe aos 45 anos, e o pós-parto que nunca imaginou.
Educada para ser independente
A Mara vem de uma família latina, onde a família conta muito. Mesmo assim, a mensagem era sempre a mesma: viaja, estuda, sê independente, ganha o teu dinheiro, escolhe o parceiro certo. A maternidade nunca foi apresentada como opção.
Olhando para trás, vê o que faltou: valorizava-se a independência, mas não a interdependência. "Não fomos feitos para viver sozinhos."
Congelar os óvulos aos 37: o presente que não queria
Aos 37 anos, em Nova Iorque, o então companheiro sugeriu que congelasse os óvulos e ofereceu-se para pagar. A Mara ouviu a mensagem implícita: ele não planeava ter filhos com ela. Nunca foi a uma única consulta, e ela passou pelo procedimento sozinha. No dia a seguir à punção, descobriu que ele a tinha traído.
Precisou de um ano para se recompor. Dos 17 óvulos recolhidos, só 6 eram viáveis, o que ela atribui ao stress que vivia na altura.
"Na altura foi o pior presente. Hoje, foi o melhor presente que podia ter recebido."
Escolher o parceiro certo, e ter a conversa difícil
A Mara trabalhou em si própria durante um ano, a perguntar-se quem preciso de me tornar? Aos 39 anos, num retiro em Barcelona, conheceu o Sebastian. Ele soube logo. Ela seguiu o conselho simples de um amigo: diz que sim, e se não gostares, apanhas um avião. Depois veio visitá-lo a Lisboa, chegou a pandemia, e ficou.
Quando ele a pediu em casamento, não queria filhos. A Mara também não sabia se queria, mas queria ter a opção, e estava pronta para ir embora. Ele aceitou considerar. Passaram por tempos difíceis, e ambos se comprometeram a crescer. Aos 44 anos, depois de um ano sabático a viajar pelo mundo, estavam os dois prontos: queriam uma família.
Graças aos óvulos congelados, a Mara nunca sentiu pressa para começar uma.
FIV em Nova Iorque, gravidez em Lisboa
Como só tinha seis óvulos, a Mara não quis arriscar perder nenhum no transporte ou na descongelação noutra clínica. Por isso, ela e o Sebastian mudaram-se dois meses para Nova Iorque para fazer a FIV na clínica que os tinha congelado. A família veio apoiá-la. O primeiro ciclo resultou.
De volta a Lisboa, encontrou uma médica disposta a manter o acompanhamento semanal que a clínica de FIV exigia no primeiro trimestre. Foi ao mesmo tempo angustiante e tranquilizador.
Grávida aos 45: "uma gravidez normal"
A Mara tinha dois medos: o julgamento dos outros e os avisos dos médicos. Protegeu a saúde mental mantendo a gravidez em privado, partilhando-a só com os amigos e a família mais próximos.
Consultou três obstetras em Lisboa antes de escolher. Quando falou da sua "gravidez geriátrica", os três riram-se com simpatia: ela estava saudável, o bebé estava saudável, e iriam simplesmente acompanhar a evolução.
Dois planos de parto, e uma cesariana escolhida
A Mara encontrou uma doula e preparou dois planos de parto, um para parto vaginal e outro para cesariana. Não estava presa a nenhum. O objetivo era um bebé saudável.
Às 38 semanas e meia, o líquido amniótico estava a diminuir e a médica recomendou terminar a gravidez. Explicou-lhe como seria uma indução. O corpo da Mara não mostrava sinais de estar pronto. Foi a Mara que perguntou pela cesariana, e a médica explicou as duas opções sem pressionar.
No plano para a cesariana, a Mara pediu:
- que lhe explicassem tudo, em inglês;
- que baixassem o pano quando o bebé nascesse;
- o bebé no peito o mais depressa possível.
Disseram-lhe que, no campo estéril, o pediatra observa primeiro o bebé. A médica falou com o pediatra, e a equipa entregou-lhe o bebé em poucos instantes. A cirurgia inteira durou 15 minutos.
"Passei de não ter bebé a ter um bebé em quinze minutos. O meu corpo, a minha mente e o meu espírito precisaram de tempo para acompanhar."
Amamentação: marca a ajuda antes do parto
Uma dica do workshop de plano de parto da Aviva fez toda a diferença: combinar uma consultora de lactação antes do parto. A da Mara, a Mónica Pinho, foi a casa dela antes, para lhe ensinar a recolher colostro, e visitou-a no hospital nas primeiras 24 horas depois do parto, mesmo sendo véspera de Ano Novo.
No hospital, cada enfermeira dava um conselho diferente sobre amamentação. O bebé estava a perder peso e a pressão aumentava. A ajuda prática de alguém de confiança fez toda a diferença.
Procuras apoio na amamentação? Vê as consultoras de lactação do nosso diretório.
O pós-parto para o qual ninguém a preparou
"Não prestei atenção nenhuma ao que acontece quando o bebé está nos teus braços. Que erro."
A Mara tinha preparado o parto, os acessórios e o quarto. Esperava que o bebé mamasse, fosse embrulhado e dormisse no berço. Em vez disso, só dormia em cima dela. Durante 14 dias, dormiu cerca de uma hora por noite, a andar entre a cama, a cadeira de baloiço e o muda-fraldas, depois de uma cesariana.
O que gostava de ter sabido: os recém-nascidos regulam-se através da mãe, por isso querem estar perto. Hoje organizaria as noites à volta da cama, com um berço encostado a ela e as mamadas e mudas de fralda feitas sem se levantar. Se estás a pensar partilhar a cama com o bebé, informa-te antes sobre as práticas de sono seguro e fala sobre isso com o teu pediatra (The Lullaby Trust).
As vantagens de ser mãe mais tarde
Para a Mara, ser mãe aos 45 trouxe vantagens reais:
- Nenhum medo de estar a perder algo. Já viajou, construiu uma carreira e provou o que valia.
- Estabilidade financeira, que lhe permitiu escolher ficar em casa.
- Uma relação construída sobre conversas difíceis, incluindo um acordo escrito sobre as finanças quando deixou de trabalhar, para se sentir segura.
"Tem as conversas difíceis, escolhe o parceiro certo, toma as decisões certas para o teu corpo e as tuas finanças, e pede ajuda. Se eu consegui, tu também consegues."
Perguntas frequentes
Posso usar em Portugal óvulos congelados no estrangeiro? Os óvulos congelados podem ser enviados entre clínicas, mas cada etapa, o transporte e a descongelação, tem algum risco de perda. Com poucos óvulos, a Mara escolheu fazer a FIV na clínica que os congelou. Fala com as duas clínicas sobre as taxas de sobrevivência e de sucesso antes de decidir.
Uma gravidez depois dos 45 é automaticamente de alto risco? A idade acima dos 40 está associada a um risco maior de algumas complicações, incluindo a morte fetal no fim da gravidez, e por isso é frequente propor-se uma vigilância mais próxima (RCOG, 2013). Mas a idade, por si só, não define a tua gravidez: os médicos da Mara seguiram-na como uma gravidez normal, com vigilância próxima.
O que posso pedir numa cesariana programada? Podes pedir explicações durante todo o processo, que baixem o pano no nascimento, pele com pele o mais cedo possível (NICE, 2021) e que o teu parceiro fique contigo (Lei n.º 15/2014). Escreve-o no plano de parto e fala sobre isso com antecedência.
Fontes
O que os convidados partilham vem da sua experiência e prática. A informação médica e legal deste artigo tem por base as fontes abaixo, e não substitui o aconselhamento da tua equipa de saúde.
- The Lullaby Trust. Safer sleep advice
- RCOG (2013). Induction of labour at term in older mothers (Scientific Impact Paper No. 34)
- NICE (2021). Caesarean birth (NG192)
- Lei n.º 15/2014, Direitos e deveres do utente dos serviços de saúde (versão consolidada, com as alterações de 2019 sobre a gravidez e o parto)
Ouve o episódio completo
Este artigo baseia-se no episódio 11 de Born to be Wild, o podcast: Mara Liz, óvulos congelados, uma descoberta num Uber e a maternidade aos 45 (episódio em inglês). Ouve no Spotify.
Lê também: PMA sozinha, um parto prematuro e uma cesariana reparadora: a história da Rita.