Parir em Portugal · Episódio 2

Parir em Portugal: o que não te contam

A doula e ativista Sara do Vale explica como funcionam os cuidados de maternidade em Portugal, público vs privado, os teus direitos e o que fazer.

Born to be Wild · 2026-09-28

Ouvir o episódio

A Sara do Vale tem três filhos, nascidos no sistema português ao longo de 14 anos. Formou-se como doula em 2014 e, poucos meses depois, cofundou a Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto com outras duas mães, depois de ouvir vezes sem conta que "isto é Portugal, nada muda".

No episódio 2 do podcast Born to be Wild, contou à Aviva Markowicz (de quem foi doula) e à Irene Jaspers o que todas as futuras mães e pais devem saber sobre parir em Portugal.

Vê o perfil da Sara do Vale no nosso diretório.

Como funcionam os cuidados de maternidade em Portugal

A Sara descreve o sistema como conservador e hierárquico, ainda muito assente na ideia de que "o médico é que sabe". Alguns pontos essenciais:

Ligar antes de ir: a realidade de Lisboa

Na Grande Lisboa, pede-se às mulheres em trabalho de parto que liguem para a linha SNS 24 (SNS 24) antes de ir para o hospital, para saber que maternidade está aberta. As urgências fecham quando não há obstetras suficientes de serviço. Começou no verão, depois no Natal, e passou a ser rotina.

"Imaginas estar com contrações, abrir uma app e descobrir que hospital está aberto esta noite? É contra a fisiologia e contra tudo o que sabemos sobre o que as mulheres precisam."

O conselho dela: sabe isto com antecedência, tem um plano B e não deixes que isto acrescente medo à tua gravidez.

Hospital público ou privado?

Muitas famílias que podem escolhem o privado. A Sara compreende porquê: obstetra próprio e quarto individual onde o parceiro pode ficar depois do parto. Nos hospitais públicos, o trabalho de parto e o parto são num quarto individual, mas os quartos de pós-parto costumam ser partilhados.

Mas avisa que a maternidade privada é também um negócio: os obstetras são pagos por parto, por isso marcar uma indução ou uma cesariana é mais fácil para a agenda de todos. Segundo os números que cita, a taxa de cesarianas em Portugal ronda os 30% nos hospitais públicos e os 67% nos privados. Como termo de comparação, uma taxa de 10–15% foi durante muito tempo considerada a referência, e a Organização Mundial da Saúde nota que, acima de cerca de 10%, taxas de cesariana mais altas não estão associadas a menor mortalidade materna e neonatal na população (OMS, 2015).

Também podes combinar: obstetra privado durante a gravidez e parto num hospital público, ou uma parteira independente a acompanhar um parto no hospital.

Os teus direitos: a lei está do teu lado

Pode surpreender-te: Portugal tem leis muito progressistas. Desde 2019, a lei determina que os serviços de saúde sigam as recomendações da Organização Mundial da Saúde para uma experiência positiva do parto. Garante o direito a um plano de nascimento, ao consentimento informado e à recusa informada, e diz que o plano de nascimento deve ser discutido, preferencialmente até às 32 semanas de gravidez (Lei n.º 110/2019; Lei n.º 15/2014, versão consolidada).

O que falta, segundo a Sara, é aplicação e formação. Na experiência dela, muitos profissionais têm medo do plano de parto porque acham que têm mais responsabilidade legal do que realmente têm. Na verdade, um plano de parto escrito documenta as tuas escolhas informadas.

"A lei está acima do procedimento do hospital."

A indução e a pressão das 40 semanas

No público e no privado, a pressão para induzir começa muitas vezes logo depois das 40 semanas. A Sara, que teve o segundo filho com 42 semanas e meia, lembra que esperar é possível, sobretudo no SNS:

Encontrar boa informação

A internet não organiza a informação por ti. A Sara recomenda fontes fiáveis, como as revisões Cochrane, e uma equipa de apoio que te ajude a encontrar respostas sem decidir por ti, por exemplo uma doula. E ouve a tua intuição: se sais de todas as consultas inquieta, nunca é tarde para mudar de obstetra.

Procuras uma doula? Vê as doulas do nosso diretório, recomendadas por outras famílias.

Depois de uma má experiência: o que podes fazer

Se te sentiste pressionada, enganada ou tratada sem o teu consentimento, tens opções:

A Sara insiste no cuidado: voltar a contar a história pode ser retraumatizante. Fá-lo só se e quando te ajudar.

Pôr palavras na tua história de parto

No fim do acompanhamento, a Sara faz sempre uma sessão de revisão do parto com o casal: juntar as peças da história, celebrar o que correu bem, fazer o luto do que não correu.

"Seja o que for que ela sente, é. Acreditem nas mulheres."

A investigação sobre o trauma de parto aponta no mesmo sentido: muitas mulheres associam o seu trauma à forma como os profissionais agiram e comunicaram com elas (Reed et al., 2017).

Um parto difícil não é necessariamente um parto que fugiu ao plano. É aquele em que a mulher perdeu o controlo e lhe fizeram coisas sem que percebesse ou consentisse. Muitas mulheres dizem: "Nada correu como planeado, mas participei em todas as decisões."

Perguntas frequentes

Tenho de ligar antes de ir para o hospital em trabalho de parto? Na Grande Lisboa, em geral pede-se que ligues para a linha SNS 24 para saber que maternidade está aberta. Confirma as regras em vigor na tua região antes da data prevista.

Posso recusar uma indução às 41 semanas? Sim. Qualquer intervenção exige consentimento, e a lei garante a recusa informada (Lei n.º 15/2014). As recomendações preveem discutir a indução a partir das 41 semanas e propor vigilância adicional se escolheres esperar (NICE, 2021). Pede a informação completa sobre as duas opções, e decide o que faz sentido para ti.

Onde posso apresentar queixa sobre o meu parto em Portugal? Ao hospital, às ordens profissionais e à Entidade Reguladora da Saúde (ERS). Segundo a Sara, as queixas são mais eficazes nos primeiros seis meses.

Fontes

O que os convidados partilham vem da sua experiência e prática. A informação médica e legal deste artigo tem por base as fontes abaixo, e não substitui o aconselhamento da tua equipa de saúde.

Ouve o episódio completo

Este artigo baseia-se no episódio 2 de Born to be Wild, o podcast: O que (não) te dizem sobre parir em Portugal, com a Sara do Vale (episódio em inglês). Ouve no Spotify.