Doulas e parteiras · Episódio 6

O papel da parteira em Portugal: do trauma de parto ao parto em casa

A parteira Filipa Piedade transformou um parto traumático numa missão. O que as parteiras podem fazer em Portugal e a realidade do hospital.

Born to be Wild · 2026-09-28

Ouvir o episódio

A Filipa Piedade é enfermeira especialista em saúde materna e obstétrica e acompanha partos em casa como parteira independente. Há dez anos, era enfermeira com mestrado em cuidados paliativos e trabalhava numa unidade de cuidados intensivos em Lisboa, quando o nascimento da filha, a Luz, mudou tudo.

No episódio 6 do podcast Born to be Wild, contou à Aviva Markowicz e à Irene Jaspers como esse parto difícil a levou à profissão de parteira, porque deixou a sala de partos do hospital, e o que todas as mulheres em Portugal devem saber sobre o que uma parteira pode fazer.

Vê o perfil da Filipa Piedade no nosso diretório.

Dos cuidados paliativos ao parto

A Filipa traça uma linha direta entre o fim e o início da vida. Antes, morria-se em casa, rodeado dos que se ama, e nascia-se em casa. A morte e o nascimento foram ambos medicalizados. Os cuidados paliativos ensinaram-lhe a olhar para além do médico: para os desejos das pessoas, as suas necessidades, e o espaço e o silêncio que merecem.

Um primeiro parto traumático, mesmo sendo enfermeira

Apesar de ser enfermeira, a Filipa não fazia ideia de que podia pedir uma parteira durante a gravidez. Seguiu "o caminho tradicional português", com uma obstetra.

"O parto não foi algo que eu fiz. Foi algo que me aconteceu."

Depois vieram o isolamento, a família longe e a dificuldade de vinculação, com a culpa que tantas mães sentem e raramente dizem em voz alta.

O parto é barulhento

Uma lição que a Filipa partilha hoje com todos os parceiros: o parto é barulhento, e isso é normal. Hoje sabe que podia ter ficado mais tempo em casa. Precisava de alguém que estivesse com ela, não de alguém que a apressasse.

Porque é que o plano de parto é aliado da parteira

Quando mais tarde trabalhou como parteira no Hospital de Cascais, os planos de parto eram a sua melhor ferramenta. Os protocolos hospitalares incentivam a "gestão ativa do trabalho de parto", incluindo a aceleração com ocitocina sintética, com a qual discorda quando o trabalho de parto está a progredir normalmente.

"Se o teu plano de parto diz que não queres aceleração do trabalho de parto, ótimo, estamos no mesmo caminho! A prioridade és tu, não os protocolos."

Segundo a Filipa, nos hospitais públicos os partos de baixo risco são em grande parte acompanhados por parteiras, e muitas partilham a visão dela. O teu plano de parto escrito dá-lhes margem para o seguir.

O que as parteiras podem legalmente fazer em Portugal

Em Portugal, as parteiras são primeiro enfermeiras e depois especializam-se em saúde materna e obstétrica. As suas competências estão definidas pela Ordem dos Enfermeiros (Regulamento n.º 391/2019), em linha com a diretiva europeia sobre as parteiras (Diretiva 2005/36/CE, art. 42.º). Como explica a Filipa, são alargadas:

O que falta, segundo a Filipa, é poder prescrever na prática: apesar de o regulamento incluir a prescrição de alguns exames, o sistema continua a exigir que ecografias e análises sejam prescritas por um médico. E o acompanhamento por uma parteira independente não é coberto pelo SNS, e normalmente também não pelos seguros, que só cobrem "atos médicos". Mesmo assim, a Filipa passa sempre fatura, para que as seguradoras continuem a recebê-las.

Outra especificidade portuguesa, segundo a Filipa: não existem casas de parto. Como diz a Filipa, Portugal passou diretamente das parteiras tradicionais das aldeias para partos no hospital para todas, sem meio-termo.

O burnout escondido das parteiras hospitalares

A Filipa descreve uma realidade de que pouco se fala:

Depois de um último episódio de falta de respeito entre colegas, deixou a sala de partos. Hoje trabalha como parteira de partos em casa com uma antiga colega do hospital, a Sandra Pedro, e acompanha mulheres na gravidez e no pós-parto.

"Quanto mais partos fisiológicos acompanhava, mais acreditava que o que fazíamos no hospital estava errado."

A mensagem dela a todas as mulheres

"O sítio para parir é o sítio onde a mulher se sente segura."

Pode ser em casa ou no hospital. Numa gravidez de baixo risco, podes escolher acompanhamento só por parteira, obstetra e parteira juntos, ou só obstetra. Pergunta a ti própria, e aos profissionais: o que me faz sentir segura e respeitada?

Procuras uma parteira? Vê as parteiras do nosso diretório.

Perguntas frequentes

Uma parteira pode acompanhar toda a minha gravidez em Portugal? Sim, numa gravidez de baixo risco: faz parte das competências legais das parteiras especialistas (Regulamento n.º 391/2019). Na prática, explica a Filipa, as ecografias e as análises continuam a precisar da prescrição de um médico.

O meu parceiro pode estar comigo numa cesariana? Sim. A lei dá-te o direito a acompanhamento em todas as fases do trabalho de parto, incluindo partos com fórceps, ventosa e cesarianas (Lei n.º 15/2014, art. 16.º). Por vezes os hospitais invocam razões clínicas para recusar, como aconteceu com a Filipa, por isso fala disso com antecedência e escreve-o no plano de parto.

O acompanhamento por uma parteira independente é coberto pelo SNS ou pelo seguro? Em geral, não. É um serviço privado, e a maioria das seguradoras só reembolsa cuidados prestados por médicos.

Fontes

O que os convidados partilham vem da sua experiência e prática. A informação médica e legal deste artigo tem por base as fontes abaixo, e não substitui o aconselhamento da tua equipa de saúde.

Ouve o episódio completo

Este artigo baseia-se no episódio 6 de Born to be Wild, o podcast: "Não queria que te sentisses sozinha outra vez", com a Filipa Piedade (episódio em inglês). Ouve no Spotify.

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