Parto prematuro · Episódio 9
Três partos prematuros, três histórias diferentes: do trauma ao empoderamento
A parteira Sara Arruda teve três bebés prematuros nos Açores. Como passou de um primeiro parto traumático ao parto que visualizou.
Born to be Wild · 2026-09-28
A Sara Arruda é enfermeira, parteira e health coach nos Açores. É também mãe de três rapazes, de 17, 6 e 4 anos, todos nascidos prematuros, de três formas completamente diferentes.
No episódio 9 do podcast Born to be Wild, contou à Aviva Markowicz e à Irene Jaspers como passou de um parto em que não esteve "presente" ao parto que visualizou todos os dias, e porque vê hoje o autocuidado como um ato radical.
Primeiro parto: um helicóptero e um bebé na neonatologia
A Sara tinha 23 anos, acabada de sair do curso de enfermagem, quando engravidou. A gravidez foi normal até que, por volta das 26 semanas, as contrações começaram durante um fim de semana em Santa Maria, uma ilha sem maternidade nem neonatologia. Foi evacuada de helicóptero para o hospital de São Miguel.
O filho nasceu por cesariana sob anestesia geral. A última coisa que ouviu antes da cirurgia foi um neonatologista a dizer que não sabia se o bebé ia sobreviver. Depois, ficou quatro horas de olhos fechados, com medo de perguntar.
"Não queria abrir os olhos, porque não queria saber se ele estava vivo ou não."
Seguiram-se três a quatro meses na neonatologia: tirar leite, voltar a casa todas as noites a rezar "protege-o até amanhã", enquanto o marido trabalhava noutra ilha. Quando finalmente levaram o filho para casa, vestiu-o com roupa de bonecas, porque na altura não havia roupa para prematuros.
Nunca se descobriu a causa. Essa incerteza fez com que esperasse 12 anos antes de voltar a tentar.
Segundo parto: um parto vaginal, mas não nos seus termos
Nesses anos, a Sara formou-se como parteira e construiu as suas ferramentas: meditação, respiração, mindfulness, hipnoparto. O medo esteve lá durante toda a gravidez. Viveu um dia de cada vez.
Às 36 semanas e 5 dias, teve uma hemorragia forte e correu para o hospital onde trabalhava. O bebé estava bem. Feliz por não ter um bebé muito prematuro, "fez tudo o que lhe disseram": epidural aos 6 cm, depois um parto com fórceps e episiotomia, sem outra explicação além de "estavas a sangrar".
Foi um parto vaginal, como queria. Mas desejava menos intervenção e mais diálogo, mesmo com uma médica que conhecia e em quem confiava. Essa foi a lição que levou para o terceiro parto.
Já o pós-parto foi aquele que lhe tinha faltado da primeira vez: pouco sono, amamentação constante e uma felicidade profunda. Amamentou quatro anos seguidos, dois com o segundo filho e dois com o terceiro.
Terceiro parto: exatamente como o visualizou
Sentindo-se empoderada, a Sara sentou-se com papel e caneta e escreveu o que queria para este parto. Visualizou-o todos os dias em meditação.
Gostava de ter um parto em casa, com duas parteiras de confiança e o hospital a dez minutos. O marido, marcado por dois partos prematuros, não se sentia seguro. Chegaram a um meio-termo: fazer o trabalho de parto em casa e ir para o hospital para o nascimento.
As contrações acordaram-na às 3h. Ficou em casa até às 5h30, chegou ao hospital por volta das 5h45, e o filho nasceu às 6h, com 36 semanas e 6 dias, saudável.
"Foi tudo como planeei, como imaginei, como visualizei."
O parto em casa é legal em Portugal? Sim. Como explica a Irene no episódio, nenhuma lei o proíbe, embora também não exista uma lei específica que o regule. Assistir um parto normal faz parte das competências legais das parteiras especialistas (Regulamento n.º 391/2019).
O pós-parto mais difícil
O terceiro pós-parto foi o mais duro: um recém-nascido, um bebé pequeno e um segundo filho diagnosticado com autismo. A Sara aprendeu que o amor se multiplica a cada filho, mas a atenção tem de ser dividida, e isso é difícil.
O "pós-parto do pós-parto"
Os manuais dizem que o pós-parto termina às seis semanas. A Sara sabe que não. Por volta dos três meses, quando o bebé está bem e todos esperam que voltes ao normal, muitas mulheres percebem que a mulher que eram já não existe.
"Em Portugal diz-se que quando nasce um bebé nasce uma mãe. Eu acho que nasce uma nova mulher."
É por isso que a Sara inclui um módulo sobre o pós-parto nas aulas de preparação para o parto, e acompanha as mulheres muito depois do nascimento, como health coach.
- Prepara o pós-parto durante a gravidez. Saber o que vem não assusta as mulheres, protege-as.
- Constrói a tua rede de apoio com antecedência: pessoas que aparecem sem teres de pedir.
- A sociedade tem de mudar. A exaustão é a principal dificuldade das mães, e o apoio devia fazer parte do sistema, não ser algo que se tem de pedir.
Autocuidado não é um dia de spa
Depois de ter sido diagnosticada com colite ulcerosa aos 22 anos, a Sara aprendeu a cuidar da sua saúde. Escreveu um livro sobre isso, Cuida-te.
Para ela, autocuidado não é uma massagem nem duas horas livres. É uma pequena coisa pela tua saúde, todos os dias: dois litros de água, uma caminhada, um exercício de respiração, um banho demorado.
"Cuidar de ti não é um luxo. O luxo é a tua saúde."
A mensagem dela às mães recentes
"Isto vai passar, e vai passar muito depressa. É difícil, tenta aproveitar alguma coisa. É normal não te sentires a mesma pessoa. Eu estou contigo, e tu consegues."
Procuras uma parteira para preparar o parto e o pós-parto? Vê as parteiras do nosso diretório.
Perguntas frequentes
Posso ter um parto vaginal depois de uma cesariana por prematuridade? Muitas vezes, sim. A Sara teve dois partos vaginais depois da primeira cesariana. Depende do tipo de incisão e da tua história clínica (RCOG, 2015), por isso fala disso com a tua equipa.
O que acontece quando um bebé nasce muito prematuro nos Açores? As grávidas das ilhas sem maternidade são transferidas, por vezes por via aérea, para um hospital com neonatologia, como o de São Miguel.
Como posso preparar o pós-parto? Fala sobre ele durante a gravidez, planeia apoio prático, e identifica as pessoas que vão estar presentes sem teres de pedir.
Fontes
O que os convidados partilham vem da sua experiência e prática. A informação médica e legal deste artigo tem por base as fontes abaixo, e não substitui o aconselhamento da tua equipa de saúde.
- Regulamento n.º 391/2019, competências específicas do enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica (Ordem dos Enfermeiros)
- RCOG (2015). Birth after previous caesarean birth (Green-top Guideline No. 45)
Ouve o episódio completo
Este artigo baseia-se no episódio 9 de Born to be Wild, o podcast: Três partos prematuros. Uma transformação radical, com a Sara Arruda (episódio em inglês). Ouve no Spotify.
Lê também: Parir nos Açores: a história do parto em casa da Irene.