Histórias de parto · Episódio 1
Planear um parto em casa em Portugal: quando o plano B é o parto certo
A Maria, médica, e o Carlos planearam um parto em casa. Após cinco noites de trabalho de parto, foram para o hospital e tiveram o parto de que precisavam.
Born to be Wild · 2026-09-28
A Maria é médica de família, especializada em saúde da mulher. O Carlos trabalha em gestão. Juntos há 12 anos, prepararam-se durante muito tempo para o primeiro filho, e escolheram algo que pouca gente à volta deles compreendia: um parto em casa em Portugal, com parteiras independentes e o mínimo de intervenção médica possível.
No episódio 1 do podcast Born to be Wild, contaram à Aviva Markowicz e à Irene Jaspers como se prepararam, porque é que cinco noites de trabalho de parto em casa terminaram numa transferência para o hospital, e porque é que continuam a descrevê-lo como "o parto de que precisávamos".
Porquê um parto em casa, sendo médica?
A Maria fez parte da formação no Reino Unido, incluindo seis meses em obstetrícia e ginecologia. Lá, as famílias podem escolher entre casa, uma casa de partos gerida por parteiras ou o hospital. Em Portugal, as opções são muito mais limitadas, e os partos hospitalares são muitas vezes muito medicalizados.
Ser médica tinha dois lados. A Maria conhecia a evidência e as recomendações, mas também conhecia os protocolos por dentro: a medicina defensiva e o medo. "Os médicos só veem as complicações", explica. "A parteira sabe olhar para a mulher. Só de ouvir os sons, sabe em que fase do trabalho de parto ela está."
Decidiu não contar o plano aos colegas. Como diz o Carlos, estavam "fora da norma duas vezes": um parto em casa, e uma médica a planeá-lo.
Como organizar um parto em casa em Portugal
A primeira pergunta foi simples: por onde se começa? O que aprenderam:
- Precisas de uma parteira independente. A Maria encontrou uma lista das parteiras que acompanham partos em casa em Portugal. Era curta: entre 12 e 20 nomes.
- Contacta-as cedo. Como são poucas, a disponibilidade é um problema real. A Maria e o Carlos contactaram várias logo a seguir à ecografia das 12 semanas e entrevistaram algumas antes de escolher.
- As parteiras trabalham em dupla. No dia, conta com uma equipa de pelo menos duas.
- A preparação faz parte do acompanhamento. A parteira deles fazia sessões mensais e aulas de grupo com outros casais, onde pais que já tinham tido partos em casa vinham partilhar a experiência.
- Continuas a precisar de um médico. As parteiras em Portugal têm competências legais alargadas (Regulamento n.º 391/2019), mas na prática algumas prescrições, como ecografias e análises, continuam a passar por um médico (lê o artigo da Filipa). A Maria e o Carlos encontraram uma obstetra que conhecia e respeitava o plano deles.
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Preparar o espaço, não só o corpo
Antes da conceção, leram sobre parentalidade consciente e aproveitaram uma viagem de seis meses para se prepararem. Mais tarde, escreveram os seus valores para o parto, os sentimentos que queriam no quarto, fosse onde fosse: conexão, amor, serenidade, confiança e entrega. Os cartões ficaram espalhados pela casa, ao lado das mensagens de uma bênção da mãe (mother's blessing) feita com a família e as amigas.
Depois da data prevista: toda a gente começa a perguntar
A data prevista era 28 de dezembro. Passou o Natal, depois o Ano Novo. À medida que as 41 semanas passavam, as chamadas e as perguntas multiplicavam-se. Mesmo com os conhecimentos de médica, a Maria começou a duvidar de si própria.
Uma amiga que tinha planeado um parto em casa na Austrália deu-lhe outra perspetiva: lá, dizia ela, ninguém perguntaria nada antes das 42 semanas.
Cinco noites de trabalho de parto em casa
O trabalho de parto começou no Dia de Reis, a 6 de janeiro, com 41 semanas e alguns dias. À noite, as contrações vinham a cada um ou dois minutos, mas nunca ficaram regulares, e acalmavam durante o dia. Isto durou cinco noites. A parteira passava regularmente, o Carlos apoiava a Maria em cada contração, e a Maria passou a última noite, cerca de 12 horas, na banheira.
A Maria estava tão exausta que adormecia profundamente dois ou três minutos entre contrações. A dilatação estava parada nos 4 cm, e o Matthias, o filho deles, ainda não tinha encaixado na bacia, o que, segundo a parteira, é raro num primeiro bebé.
Saber quando mudar de plano
Foi a Alma, amiga e doula de reserva, quem disse primeiro o que a Maria precisava de ouvir: o hospital sempre foi uma opção. A Maria sentiu alívio.
"Na primeira vez, não sabes o que é normal. Achas que sofrer é sinal de progresso."
A Maria chorou, falou com o bebé e tomou ela própria a decisão. Saíram com calma, com as malas já feitas.
Um parto no hospital que respeitou o plano deles
No hospital, a médica pediu o plano de parto e apresentou três "inegociáveis": acesso venoso, monitorização por CTG e ocitocina depois do parto para prevenir hemorragia. Conseguiram um CTG sem fios. Tudo o resto foi respeitado: luz baixa, a playlist deles, privacidade. Nota que a Organização Mundial da Saúde recomenda de facto um uterotónico, como a ocitocina, depois de todos os partos para prevenir hemorragias (OMS, 2018), por isso vale a pena falar deste ponto com antecedência.
Negociaram também o resto:
- A Maria pediu uma epidural para finalmente descansar. Foram precisas duas tentativas e nunca funcionou na perfeição.
- A equipa queria começar logo com ocitocina sintética, quando o CTG estava normal e o bebé estava bem. O casal perguntou porquê e ganhou tempo: começaram com metade da dose habitual, e só passaram à dose normal muitas horas depois.
- Em poucas horas, a Maria estava com dilatação completa.
A Maria reconhece com honestidade que ser médica facilitou que a ouvissem, o que não devia acontecer. Conhecer as tuas opções e perguntar "porquê?" ajuda sempre.
O parto de que precisavam
Por sorte, a parteira de serviço tinha estagiado com a parteira deles duas semanas antes. A fase expulsiva durou cerca de 35 minutos, num quarto quase às escuras (a luz cirúrgica estava avariada), com a playlist a tocar e a parteira a cantar.
O Matthias nasceu saudável às 42 semanas. Deixaram-nos sozinhos durante uma hora. Foi logo para o peito da Maria, em pele com pele, mamou de imediato, e não foi pesado nem limpo nas primeiras duas horas.
"Não foi o parto que pedimos, mas foi sem dúvida o parto de que precisávamos."
O que diriam a outros pais
- Conhece os teus limites e respeita-os. Da próxima vez, a Maria quer ouvir o corpo mais cedo, e confiar mais no bebé e no processo.
- Parceiros, passem do fazer ao estar. Para o Carlos, o papel do parceiro não é resolver. Não se resolve um trabalho de parto. É estar presente e em sintonia, e isso pode ser treinado durante a gravidez.
- O plano B pode ser bonito. Um parto respeitado no hospital é possível quando os teus valores, o teu plano de parto e uma boa equipa estão presentes.
Perguntas frequentes
Como encontrar uma parteira para um parto em casa em Portugal? São poucas as parteiras independentes que acompanham partos em casa. Contacta-as cedo, de preferência depois da ecografia do primeiro trimestre, e conhece algumas antes de escolher. Podes começar pelas parteiras do nosso diretório.
O que acontece se um parto em casa precisar de transferência para o hospital? A parteira vai contigo e passa o teu caso à equipa do hospital. Leva o teu plano de parto: muitos hospitais leem-no e respeitam boa parte dele.
Posso recusar ocitocina sintética num hospital em Portugal? Sim. A lei garante o consentimento informado e a recusa informada (Lei n.º 15/2014). Podes perguntar porque é que uma intervenção é proposta e discutir alternativas, como esperar ou uma dose mais baixa, quando tu e o bebé estão bem. Alguns procedimentos podem ser apresentados como regra do hospital.
Fontes
O que os convidados partilham vem da sua experiência e prática. A informação médica e legal deste artigo tem por base as fontes abaixo, e não substitui o aconselhamento da tua equipa de saúde.
- Regulamento n.º 391/2019, competências específicas do enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica (Ordem dos Enfermeiros)
- Organização Mundial da Saúde (2018). WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience
- Lei n.º 15/2014, Direitos e deveres do utente dos serviços de saúde (versão consolidada, com as alterações de 2019 sobre a gravidez e o parto)
Ouve o episódio completo
Este artigo baseia-se no episódio 1 de Born to be Wild, o podcast: Uma médica de família que escolheu um parto em casa, com a Maria e o Carlos (episódio em inglês). Ouve no Spotify.
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