Cesariana · Episódio 3

Cesariana assistida pela mãe: quando és tu a tirar o teu bebé

O obstetra neerlandês Koen Deurloo explica a cesariana assistida pela mãe (MAC), uma cesariana respeitada em que a mãe guia o bebé com as próprias mãos.

Born to be Wild · 2026-09-28

Ouvir o episódio

O Koen Deurloo é obstetra no hospital Diakonessenhuis, em Utrecht, nos Países Baixos. Há nove anos, uma grávida fez-lhe uma pergunta que ele nunca tinha ouvido: podia ser ela a tirar o seu bebé durante a cesariana programada?

Essa pergunta deu origem à cesariana assistida pela mãe (MAC, mother-assisted caesarean), que ele hoje faz perto de cem vezes por ano. No episódio 3 do podcast Born to be Wild, explicou à Irene Jaspers como funciona, o que mostram os dados e o que isso lhe ensinou sobre ouvir as mulheres.

De onde veio a ideia

A mulher, Camilla, chegou à consulta com a sua doula. O parto anterior tinha sido vaginal, mas traumático: teve medo de perder a vida e a do bebé. No segundo parto, sentiu que guiar o bebé durante uma cesariana programada a ajudaria a curar.

O Koen nunca tinha lido nada sobre isso, e não havia nada no YouTube nem na literatura médica. Com alguns colegas entusiastas, treinou no bloco operatório com uma boneca e panos cirúrgicos até encontrarem uma forma segura de o fazer.

"O bloco operatório inteiro ficou em silêncio quando ela tirou o bebé."

Como funciona uma cesariana assistida pela mãe

A MAC é uma cesariana programada, de baixo risco, com anestesia raquidiana, como qualquer outra. O que muda:

  1. A mãe veste-se como a equipa cirúrgica: bata estéril e luvas estéreis, o que demora mais quatro a seis minutos.
  2. Espera com as mãos no peito. Quando o útero está aberto, o obstetra empurra o bebé suavemente, "como um tubo de pasta de dentes".
  3. O bebé nasce nas mãos da mãe, que o traz para o peito, com a ajuda do obstetra.
  4. Uma abertura pré-cortada na bata é rasgada para o bebé ir logo para pele com pele. O bebé fica com a mãe, a não ser que seja preciso um exame médico.

O custo extra, segundo o Koen: dois pares de luvas estéreis e uma bata, cerca de 9 a 10 euros.

É seguro?

Os colegas preocuparam-se primeiro com a perda de temperatura, a infeção e a perda de sangue. O Koen documentou todas as MAC que fez. Em várias centenas de procedimentos, não vê diferença na perda de sangue, na temperatura nem nas complicações em comparação com uma cesariana normal. Os dados foram submetidos a uma revista científica; até serem publicados, são números do próprio Koen.

O que vê é um grande ganho em confiança, autoestima, vivência do parto, amamentação e vinculação. Alguns pais descrevem-no como uma experiência reparadora depois de um trauma anterior.

Não é para todas, mas está aberta a todas

O Koen não acha que todas as mulheres precisem ou queiram uma MAC. A maioria das que vão ter uma cesariana quer simplesmente uma cesariana respeitada: calma, com pele com pele imediato e sem separação por rotina. O contacto pele com pele precoce também é recomendado depois de uma cesariana (NICE, 2021) e favorece a amamentação (Cochrane, 2016). No hospital dele, cerca de 10 a 20% das mulheres com cesariana programada escolhem a MAC, muitas vezes as que tiveram um parto traumático ou que querem participar ativamente.

Os parceiros também têm um papel: estão por perto, a apoiar e a receber o bebé.

Porque é que mais hospitais não a oferecem

Uma estudante de medicina perguntou a 15 hospitais neerlandeses porque não fazem MAC. A razão principal: não conhecem realmente o procedimento. Imaginam algo sangrento ou arriscado, quando na verdade é "doce e bonito". O Koen ajuda hoje hospitais da Argentina à Noruega e à Bélgica a implementá-la, muitas vezes só com uma videochamada.

As normas orientam, não mandam

Para o Koen, bons cuidados juntam três coisas: as normas, a experiência do médico e a própria mulher, com os seus valores, os seus planos e os riscos que está ou não disposta a correr. A mesma indicação médica pode levar duas mulheres a escolhas diferentes e igualmente válidas.

Aponta também um enviesamento de que os médicos devem ter consciência. Num hospital com 3000 partos por ano, um risco de 0,1% acontece três vezes por ano. Os médicos veem complicações raras com frequência, e o medo pode moldar os conselhos.

Quando uma mulher diz "não"

No início da carreira, o Koen empurrou uma mulher para uma indução por causa de um bebé que temia ser demasiado pequeno. Mãe e bebé ficaram bem, mas ela disse-lhe depois: "Empurrou-me para isto. Eu podia ter dito que não."

Isso mudou a forma como trabalha. Hoje, quando uma mulher recusa um conselho dele, pergunta porquê.

"O consentimento informado está certo, e a recusa informada também, desde que seja informada. Depois exploras: o que podemos fazer para te ajudar?"

Conselhos para futuras mães e pais

E em Portugal?

A MAC ainda é rara, e as taxas de cesariana em Portugal são altas, sobretudo nos hospitais privados (lê o que não te contam sobre parir em Portugal). O Koen acredita que esta abordagem é especialmente relevante em sistemas como o português. Se vais ter uma cesariana, podes perguntar ao teu obstetra e ao hospital por uma cesariana respeitada ou assistida pela mãe: pele com pele imediato, pano baixado, sem separação por rotina.

Lê também a história da Rita: PMA sozinha, um parto prematuro e a MAC que mudou tudo, e o que não te contam sobre parir em Portugal.

Perguntas frequentes

O que é uma cesariana assistida pela mãe? Uma cesariana programada em que a mãe, com bata e luvas estéreis, ajuda a tirar o bebé da barriga e o traz logo para o peito, em pele com pele.

A cesariana assistida pela mãe existe em Portugal? Ainda é pouco comum. Pergunta diretamente ao teu obstetra ou ao hospital, e procura profissionais abertos a uma cesariana respeitada. Vê os obstetras do nosso diretório.

Demora mais ou custa mais? Segundo o Koen Deurloo, acrescenta cerca de quatro a seis minutos para vestir a mãe, mais uma bata estéril e dois pares de luvas.

Fontes

O que os convidados partilham vem da sua experiência e prática. A informação médica e legal deste artigo tem por base as fontes abaixo, e não substitui o aconselhamento da tua equipa de saúde.

Ouve o episódio completo

Este artigo baseia-se no episódio 3 de Born to be Wild, o podcast: É assim que uma cesariana pode ser quando as mulheres lideram, com o Dr. Koen Deurloo (episódio em inglês). Ouve no Spotify.